As Seis Primeiras Faces

sexta-feira, 26 de agosto de 2011


A primeira face
Cabelos ao vento. Olhos fixos ao horizonte. Tendo um pequeno monte de papelão como cama e o outro lado do viaduto como quintal, aquele homem passava seus dias. Sua rotina consistia em acordar quando o fluxo de carros no quintal se tornava significativo, recolher a cama com cuidado, escondê-la em lugar seco e fora do alcance de seus vizinhos. Depois, destinar-se ao trabalho, que, para sua sorte, ficava em uma esquina próxima de sua residência. Lá, especializou-se em venda de "Dever social cumprido", "Pra não falar que nunca ajudei ninguém" e "Vê se não me aborrece novamente". Certa manhã foi encontrado morto por um gari.

A Segunda Face
Os cabelos ao vento e os olhos fixos no horizonte evidenciavam que a mente daquele homem não se encontrava debaixo de um viaduto. Alguns pedaços de papelão, recém conquistados numa lixeira, o faziam companhia ao mesmo tempo em que diminuíam de forma insuficiente o desconforto diante de um  solo irregular. Os carros já se aglomeravam, era hora de trazer a mente de volta para debaixo do viaduto. Cuidadosamente, dobrou e guardou os papelões. Ainda impregnado da preguiça matinal, foi cambaleante até o farol mais próximo. Lá, ouvia "nãos" silenciosos de abanos de cabeça. Foi focado por olhares de indignação, piedade e até ira. Retornou à procura de seu papelão. Na mão, algumas moedas de cinco e dez centavos. O papelão já não estava mais lá. A única alternativa foi dormir no chão sujo e frio. Na manhã seguinte um gari encontrou um mendigo morto debaixo de um viaduto, tal indivíduo portava na mão direita exatos setenta e cinco centavos.

Algo entre a Terceira, a Quarta, a Quinta e a Sexta Face
O Sol apontava no horizonte. Os olhos que fitavam tal cena, na realidade, enxergavam outros inícios de manhãs deixados em um passado bem distante. A gigante diferença das manhãs atuais com as passadas dava-lhe a impressão de que não eram recordações dessa vida, mas sim de uma vida passada deixada há séculos atrás. Uma freada brusca, seguida de uma buzina, retirou-o de seu transe. Pegou o papelão em que estava deitado, o dobrou cuidadosamente. Após guardá-lo atrás de uma viga, deixou o viaduto em direção a uma esquina de grande movimento. Ao chegar no local, era hora de, definitivamente, esquecer o passado. Sua atenção deveria voltar-se exclusivamente a deixar transparecer o cansaço no seu olhar e na sua mão trêmula. Os carros com suas janelas fechadas, poucas vezes deixavam aparecer uma aberturazinha donde caiam míseras moedas, as quais não detinham nenhum apreço de seus antigos donos. Já quando chegavam às mãos daquele homem, essas mesmas moedas eram promovidas à importância de notas de 50 e 100 reais. Naquele dia, o senhor dos olhos cansados e da mão trêmula voltou a seu viaduto contando e recontando setenta e cinco centavos. Cada vez que conferia suas moedas, tinha simultaneamente a esperança de ter errado a conta e, na realidade, ter mais do que pensava, e o medo de ter contado mais de uma vez uma mesma moeda. Foi direto a viga em que deixara o papelão. Já não estava lá. Mas o senhor já estava acostumado com perdas. Resignado deitou naquele chão nem um pouco atrativo. Encolheu-se todo, abraçando a mão que portava sua fortuna. Na manhã seguinte, o sol não foi fitado por um olhar saudoso e cansado, e um gari teve uma história para contar ao longo de seu dia sobre um mendigo morto que segurava setenta e cinco centavos.

 

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